a carreira de Anselmo;

ADAURY VELOSO ;

a história da tatuagem e de relação com o tio que move a carreira de Anselmo

Capitão do Sport e maior ladrão de bolas da Série A, atleta lembra início no futebol, a dor da perda do mentor e avalia detalhes da carreira e do Leão;

Lera Eterno. As duas palavras, escritas em uma tatuagem no antebraço esquerdo de Anselmo, começam a ganhar todo sentido na vida do volante do Sport quando as coisas pareciam dar errado. Depois de passar boa parte da infância nas escolinhas de futebol, em São Paulo, capital onde nasceu, ele não conseguia ganhar oportunidade na base de um clube. Tentou no Corinthians, Palmeiras, Internacional, na Portuguesa. As portas, uma a uma, foram se fechando. Até que chegou a hora de desistir do sonho de ser jogador e ficar apenas na várzea, no momento da diversão no bairro de Jardim Ângela, zona sul da capital paulista.

Mas Lera, sempre ele, pegou nas mãos do então garoto e o levou adiante. “Foi ele que me arrastou por esse mundão”, recorda Anselmo. Arrastou de porta em porta até que a do Palmeiras, antes fechada, abriu-se. Por lá, começou na categoria de base. Em um ano meio, chegou no Palmeiras B. Em mais um ano e meio, chegou no profissional. Foi promovido pelo técnico Vanderlei Luxemburgo. Era tudo que Lera queria. E sabia que iria acontecer. Mas, naquele ano de 2010, as coisas não teriam um final feliz.
Lera era o tio de Anselmo. Seu nome, na verdade, era Elísio. Na mesma temporada que seu sobrinho conseguiu espaço em uma das maiores equipes do Brasil, fruto da insistência dele, o inesperado o levou para outro plano aos 54 anos. Uma pedra nos rins o forçou a ir no hospital para retirá-la. Na volta para casa, Lera apresentou uma infecção. Passou mal e foi levado às pressas de volta aos médicos. Era tarde.
“Para mim, foi um choque. Fiquei muito triste. Uma pessoa que me ajudou para caramba. Ajudou meus pais. Sou eternamente grato por isso e ele foi assim do nada”, conta Anselmo, com um olhar que denuncia a falta do parente. “De repente, ele já tinha cumprido a missão na terra. Vai ver foi isso. Estava sofrendo muito no velório e o padre chegou para mim e falou isso: ‘ele veio, cumpriu a missão na terra e agora vai te ver lá de cima’”, acrescenta.

De cima, hoje, Lera pode ver que Anselmo, após deixar o Internacional, virou referência no Sport. Neste ano, com novo contrato de empréstimo com o Rubro-negro até o fim da temporada, virou capitão e referência técnica. Nesta Série A, é o atleta que mais roubou bolas com 32 desarmes. “O que estou vivendo hoje, sendo capitão do time, é uma coisa única. Vou levar eternamente para minha vida e espero continuar dando esse respaldo para diretoria, comissão e torcedores, que estão sempre mostrando carinho para mim.”
E a cada vez que veste a camisa do Sport, onde diz ter muito orgulho, Anselmo carrega o tio no corpo e na alma. “De alguma forma, toda vez que jogo também é para ele”, diz. Com esse combustível, o volante de 29 anos quer ir mais longe. Pensa no jogo a jogo para conseguir escrever uma história vitoriosa e duradoura no Rubro-negro. Por enquanto, prefere não colocar metas. Porém, quer chegar mais uma vez longe, como Lera sempre sonhou.

Entrevista com Anselmo

Infância e ligação com o tio

“Fiz escolinha desde os 10 anos lá no bairro onde morava. Foi passando o tempo e já não tinha mais idade de escolinha e nem clube. Eu resolvi parar e fique só jogando na várzea. Tinha um tio meu que, infelizmente, faleceu. Se estou aqui hoje, eu devo a ele porque foi ele quem encheu meu saco. Ele que me pegou no braço e me levou para fazer teste no clubes. Hoje, estou aqui graças a ele. Estava com 16 para 17 anos.”

Lera eterno

“Ele teve pedras nos rins e foi operado para tirar. Deram alta para ele e foi para casa. Depois, pegou uma infecção. Não sabemos se foi em casa ou no hospital. ele passou mal e correu para levar ele. Só que, quando chegou lá, ele não resistiu.
Para mim, foi um choque. Fiquei muito triste. Uma pessoa que me ajudou para caramba. Ajudou meus pais. Sou eternamente grato por isso e ele foi assim do nada.
Era um cara forte. De repente, ele já tinha cumprido a missão na terra. Estava sofrendo muito no velório e, de repente, o padre chegou para mim e falou isso: ‘ele veio, cumpriu a missão na terra e agora vai te ver lá de cima’.”

A vida em casa

“Meu pai sempre trabalhou e nunca me deixou faltar nada. Minha mãe também. Tenho duas irmãs mais velhas. Sou o caçula. Tive uma infância muito boa. Não tenho do que reclamar. Sempre tive bons amigos, que hoje carrego no peito.”

Passagem no Palmeiras

“Quando cheguei no Palmeiras, ainda era na época da base.  Em pouco tempo, acabei indo para o Palmeiras B. Foi um ano e meio para subir e também fiquei um ano e meio no profissional deles. Tive poucas oportunidades. Naquele tempo, o elenco do Palmeiras era muito parecido com o de hoje. Tinha muitas peças. Como era da base, tinha que esperar. Fiz poucos jogos. Foi um pontapé inicial na minha carreira. Não joguei muito, mas sempre estava trabalhando. Foi uma experiência muito boa. Quando comecei a ser emprestado, foi que comecei a aparecer para o futebol.”

Experiência na Itália (Genoa e Palermo)

“Foi muito boa. Sofri um pouco na adaptação ao futebol. Por isso, também voltei antes. tinha quatro anos de contrato e acabei apenas fazendo um.
Aí acabei voltando. Minha esposa estava grávida do primeiro filho. Ficamos com medo ficar longe da família. Eu tava sem jogar também. Eu falei para ela que tinha coragem de voltar e dar sei lá quantos passos para trás para começar de novo. Nós voltamos e comecei de novo a luta para poder voltar ao mercado.
O futebol lá é um pouco diferente do nosso. Sofri um pouquinho. Eu sou um primeiro volante. No máximo, um segundo. Lá estava jogando de lateral direito, na segunda linha defesa na frente também. Isso me atrapalhou um pouco. Mas não reclamo de nada. Agradeço a Deus pela oportunidade. Experiência muito boa de vida para mim e carrego isso.”

Passagem no Joinville

“Eu cheguei em 2014 já no final do primeiro turno da Série B. Eu nem sei como explicar, mas foi um momento único. O time estava bem no campeonato. Cheguei e me entrosei rápido com a rapaziada. Acabei fazendo bons jogos e pegando confiança. Conseguimos o título da Série B em 2014 e, quando foi em 2015, já começaram a aparecer algumas coisas.”

Passagem no Internacional

“Teve seu lado bom e o ruim. O lado ruim foi que eu não joguei o que esperava. Mas isso é coisa do futebol. Às vezes, a gente cria muita expectativa. Estava vivendo um bom momento no Joinville e pensava que chegaria lá para continuar no bom momento. Isso não aconteceu, infelizmente. Mas foi uma experiência boa. Jogar no Inter que é um clube grande. Tenho maior respeito pelo clube e todas as pessoas que trabalham lá. Infelizmente, não deu certo, mas temos que seguir a vida.”

Chegada no Sport

Ricardo Fernandes/DP

“Ano passado, o time estava bem, encaixado. Não sei o que aconteceu. Ficamos muitas rodadas sem ganhar. Eu ainda tive um problema de lesão. Fiquei dois meses parado. Não ajudei os companheiros naquele início que a fase começou a ficar ruim. São coisas do futebol. Não dá para explicar. Também a questão da quantidade de jogos também pesou um pouco. São muitos jogos e, chega no final do ano, está a carga máxima em cima do corpo. Só que, dentro de campo, o que aconteceu de estar lá em cima e, de repente, estar brigando pelo rebaixamento. Passei isso com o Inter também. Não sei como explicar isso.”

Recomeço no Sport em 2018

“Fiz a pré-temporada com o grupo inteiro. Isso faz diferença. Estou feliz pelo momento. A rapaziada também está entendendo o momento que estamos vivendo. Todos sabem o que querem para si mesmos. Acho que dessa forma a gente vai conseguir não sofrer como no ano passado. Se mantiver esse foco, acredito que podemos fazer um bom Brasileiro.”

Nelsinho Batista

“Agradeço a Nelsinho pela oportunidade que ele me deu.Desde quando chegou, vi que contava comigo. O que tinha que fazer era mostrar que estava junto com ele. Já que estava dando essa oportunidade para mim, quis mostrar que eu mereço. Agradeço por isso. Ele conseguiu achar uma formação tática que fosse boa para todo mundo. Não só para mim. Tanto que a gente conseguiu dar uma melhorada no campeonato. Infelizmente, não conseguimos chegar ao título. Foi muito importante para mim ter conhecido o Nelsinho. Mais uma experiência que levo para a vida.”

Momento no Sport

“Tive outros bons momentos. Hoje, estou vivendo um especial também. Mas cada um é cada um. O momento que tive nos outros clubes também foi especial. Como estou vivendo esse hoje, quero viver o agora. O que já passou não vai voltar mais. Então, tem que aproveitar para conseguir coisas melhores para mim e o clube. O que estou vivendo hoje, sendo capitão do time, é uma coisa única. Vou levar eternamente para minha vida e espero continuar dando esse respaldo para diretoria, comissão e torcedores, que estão sempre mostrando carinho para mim.”

Como foi que recebeu a braçadeira de capitão

“A gente foi jogar contra o Santos-AP, na Copa do Brasil. Quando cheguei no vestiário e fui no meu armário, a faixa estava lá. Para mim, foi uma surpresa. Eu não esperava. Nunca havia sido capitão fixo em time algum. Fui em alguns jogos no Joinville, apenas porque Marcelo Costa estava machucado. Aqui, achei que seria mesma coisa. Aqui tem Durval e Magrão. Como Durval sempre joga, eu pensei: ‘quando voltar,  a faixa vai ser dele.’ Mas aí foi indo e está comigo até hoje. Espero que esteja usando da melhor forma. Estou honrado para caramba. Caras como Durval, Magrão, Rithely, Diego Souza, André, Marcelinho Paraíba, que é uma grande amigo meu, usaram. São caras que tenho o maior respeito e, quando Durval voltar, tenho certeza que vou passar para ele.”

Claudinei Oliveira

“Quando ele chegou, todo mundo viu que o momento estava meio complicado. Então, a gente se fechou e viu que precisa mudar isso. Se vier uma derrota, amanhã o dia vai estar pior. Então, a gente tinha que mudar a nossa postura, as nossas atitudes. Nessa, o Claudinei também chegou com a mesma ideia. A coisa foi acontecendo. A gente conseguiu as duas vitórias com Paraná e Bahia. Pelo menos, já deu para dar uma respirada e mudar todo aquele clima que estava. Com a saída do Nelsinho e um pouco antes com a mudança da diretoria, a gente conseguiu mudar um pouco essa história e deixamos o time em um posição que acabou um pouco da desconfiança de alguns.”

Futuro

“Ano passado, ficou todo mundo naquela euforia e acabou brigando para não cair. Então, é melhor pensar dia a dia, jogo a jogo. Precisamos ter os pés no chão para chegar em coisas maiores. Tenho certeza que assim, quando chegar o fim do ano, e você fizer essa mesma pergunta para mim, eu vou poder dizer que chegamos aonde a gente imaginava chegar sem loucura.
Não sei o que vai acontecer comigo para o ano que vem. Ainda tenho mais um ano de contrato com o Inter. Vamos ver o que pode acontecer. Se o Sport tiver bem, as coisas ficam mais fáceis para conversar e resolver.”

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