Náutico, Santa Cruz, Sport, Vitória e a luta das mulheres no futebol feminino em Pernambuco

Adaury veloso;  Um local adequado para treinar, cinco refeições por dia, acompanhamento de uma comissão técnica multidisciplinar, alojamento e um salário de R$ 1 mil. É uma realidade nova para quem joga futebol profissionalmente em Pernambuco. Para quem é mulher, no caso. Realidade tratada como sonho. O mínimo do mínimo, para muitas delas, é o máximo que conseguiram até hoje. São “privilegiadas” num esporte machista que tenta colocar em prática a promessa de valorizará-las. Um esporte que finge fazer por livre e espontânea vontade. No fundo, faz por obrigação.

Sim, uma obrigação. Imposta aos clubes, em especial àqueles que pretendam participar de competições internacionais nas próximas temporadas. Quem ditou a regra foi a Conmebol, a Confederação Sul-Americana de Futebol. Para participar da Libertadores ou Sul-Americana de futebol masculino, será condição indispensável manter uma equipe de futebol feminino. A medida foi anunciada em 2016, mas com um período de dois anos para adequação. Ou seja: valerá, efetivamente, a partir de 2019. A existência e manutenção da modalidade também é uma das exigências para quem quer integrar o Profut, o Programa de modernização da gestão e de responsabilidade fiscal do futebol brasileiro. Cobrança agendada para 2018.

A prorrogação do prazo não impediu o Sport de dar o pontapé inicial na retomada do futebol feminino. Com “pouco”, fez 28 jogadoras se sentirem privilegiadas. Como a zagueira Girley Barbosa Vieira (Bicê). A defensora chegou ao Sport Club do Recife quando tinha 13 anos.  Na época, foi a pé de Santo Amaro até a Ilha do Retiro para participar da peneira. De imediato ingressou no clube de coração, para jogar futsal e futebol de campo. Aos 29 anos, e há 16 no Sport, portanto, ela reconhece: nunca trabalhou com a condição que possui hoje.

“Aqui (no Sport), estamos na mordomia. Se fui pobre não me lembro. Se passei fome estava dormindo e não senti”, brinca Bicê aos risos, que viveu dias difíceis em outros clubes por onde passou. “Já joguei em times que mal tinha a alimentação. Fui até discriminada por ser nordestina, tinha salário inferior as demais atletas. Confesso que andei bastante e nenhum outro clube tem a organização que o Sport possui. Antes mesmo da gente ter tudo isso já era bom jogar aqui”, acrescenta a atleta, que já defendeu Bahia, Vitória, São Francisco do Conde, da Bahia, e Unesc, de Santa Catarina.

Girley não está só. O elenco do Sport é formado por outras 27 atletas. A maioria estava presente na apresentação oficial do time, ocorrida na última segunda-feira, no auditório da Ilha do Retiro. A cerimônia celebrou a reativação da equipe de futebol feminino, após quase dois anos de inatividade – e tantos outros de investimento parco. Estavam uniformizadas nas cores do clube, acompanhadas do técnico e sua equipe, com nutricionista, fisiologista… Todas entusiasmadas, felizes. O pouco que têm é muito. E elas sabem disso.

Discurso

Coube ao presidente do Sport, Arnaldo Barros, fazer o anúncio da reativação do futebol feminino rubro-negro, que revelou a goleira Bárbara, presente em três edições olímpicas – Pequim-2008 e Rio-2016. Conquistou medalha na primeira, um bronze. Tentou, Arnaldo, tratar o fato como algo que já estava nos planos do clube, uma iniciativa fruto de um “compromisso” assumido no passado. Falou das dificuldades vencidas para atingir o objetivo e bradou que o projeto renasce com ambições de títulos.

Destaque-se, porém, algumas ressalvas por trás do fato, expostas em algumas contradições percebidas na solenidade. Foi durante a gestão de João Humberto Martorelli, onde Arnaldo Barros desempenhava a função de vice-presidente, que o futebol feminino foi extinto. O atual mandatário tratou logo de explicar a razão de ter fechado o departamento. “Perdemos parceiros. E não tinham tantas competições para disputar. Neste ano, sim, houve um incremento com a entrada da Copa São Paulo de futebol júnior, marcada para o segundo semestre”, justificou Barros. Vale frisar que o calendário do futebol feminino manteve-se em pleno funcionamento, com as disputas do Estadual, Copa do Brasil e Nacional.

Em função do desejo da diretoria em fazer o Sport alçar novos patamares, como as disputas internacionais, foi questionado também sobre a relação entre o retorno da modalidade com as exigências da Conmebol para 2019. “Não tem nenhuma relação. A determinação de termos uma equipe de futebol feminino é por acreditarmos no talento delas. É um desejo nosso fazer um trabalho diferenciado”, disse Arnaldo.

O nada e o menos que nada

Hoje, Ana Rebeca Araújo, 19 anos, não tem nada além do que já tinha: paixão pelo futebol feminino. Goleira, hoje ela treina no Náutico. Não tem contrato. Paga as passagens do próprio bolso. É a regra no futebol  feminino. Ela sabe bem disso. No ano passado, estava no Santa Cruz, que encerrou as atividades do futebol feminino cinco meses após uma retomada. Se hoje não tem nada, antes tinha menos do que nada.

Ana resolveu ir para o Náutico no fim do ano passado, buscando um lugar melhor. A situação no Tricolor era crítica. As jogadoras não tinham estrutura adequada, não recebiam nenhuma contrapartida. “Só as meninas de fora que recebiam uns R$ 250,00 (de ajuda de custo), mas foi apenas no primeiro mês”, diz.

Diante disso, decidiu participar da seletiva no Náutico. “Passei de primeira na seletiva. Agora é esperar. O meu técnico Jeronson França já conversou comigo e disse que a diretoria vai acertar isso futuramente. Ainda não falaram de valores, mas acho que vai rolar o contrato. O bom é que pelo menos aqui, a gente tem contato direto com o técnico que repassa tudo para o pessoal lá de cima. Tudo é pessoalmente, nada pelo Whatsapp, como no Santa”, comenta Ana.

Insistência

Apesar das dificuldades, Ana Rebeca não pensa em desistir. Pensa em estratégias para continuar no futebol feminino. Independentemente de qual seja o clube, o objetivo é estar na pequena área. A goleira, inclusive, também atua no futsal do Sport. “Se eu assinar contrato com o Náutico, eu não vou puder mais treinar no Sport. Eu quero é oportunidade. Já que são poucas, quem assinar comigo primeiro eu fico, seja para o campo ou quadra. Eu quero apenas jogar, ser reconhecida pelo meu trabalho e ter a chance de disputar campeonatos”, esclarece a atleta.

 

O futuro, no entanto, ainda segue indefinido. “Por enquanto, eu tô gastando do meu dinheiro para pagar as passagens de ônibus e vir aos treinos. Eles ainda não falaram sobre isso. Vou entregar meus documentos e só depois vou saber se vou ter contrato, salário e ajuda nas passagens. Não sei o que vai acontecer, se vai ser algo de ‘boca’ ou não. Isto está acontecendo comigo e com as outras meninas”, afirmou a arqueira.

Náutico

Procurado pelo Superesportes, o diretor de futebol feminino do Náutico, Sérgio Lopes, informou que o planejamento para o departamento será concluído na segunda-feira. Ele não quis revelar os valores destinados ao departamento, mas ressalvou que o clube vai assinar contrato com as atletas. Não haverá salário, mas uma “ajuda de custo”.   Atualmente, 28 atletas integram o elenco. Foram oito contratações: as goleiras Rebeca (19 anos) e Marília (30); as zagueiras May (19) e Luzia (31); as laterais Jéssica (19) e Amanda (19); a meia Gabi (20) e atacante Israelle (21). Dessas, apenas Gabi veio de Alagoas. As demais são de Pernambuco.

que começou errado…

Era mais uma chance para o sonho. Um recomeço. Após 11 anos de inatividade, o Santa Cruz reativava o time de futebol feminino no clube. Isso aconteceu no segundo semestre do ano passado. A volta às atividades vinha por obrigação estabelecida na legislação do Programa de Modernização do Futebol Brasileiro (Profut). Para aderi-lo, a manutenção de uma equipe de futebol feminino era requisitada. Mas o sonho não durou muito tempo. No fim do ano passado, uma mudança pôs fim ao sonho das quase 30 mulheres que integravam o plantel tricolor. A obrigatoriedade passaria a valer somente a partir de 2018. Em janeiro deste ano, o departamento foi mais uma vez desativado. Voltará em 2018. Por obrigação.

O próprio presidente do clube, Alírio Moraes, confirma que a reativação foi motivada pela exigência do Profut. A ideia era que a modalidade funcionasse por meio de uma parceria, que sequer foi formalizada. Ao clube pernambucano, bastaria disponibilizar o uniforme e a responsabilidade de inscrever a equipe nas competições em nome do Santa Cruz. A chance de dar errado era grande. Como aconteceu.

Corte

O problema começou com a restrição orçamentária e a relativização da exigência do Profut. Com a obrigatoriedade de manter o futebol feminino adiada para 2018, o departamento foi riscado do organograma coral. “No fim do ano passado, fui procurado pela Federação Pernambucana e informado que para o ano de 2017 uma regra seria mudada. O clube iria ter que assumir os gastos com árbitro, operação de jogo… (antes custeados pela entidade). Então, olhando para o orçamento, que voltou a ser muito limitado com a queda para a Série B, e já com dificuldade de manter base e outros esportes amadores, tomamos a decisão de não continuar com o futebol feminino”, afirmou o presidente Alírio Moraes.

O que já começou errado, não terminaria diferente. Quando o Santa decidiu encerrar as atividades, já havia um time formado. Jogadoras “contratadas”, incluindo oito atletas de outros estados, com a promessa de receberem uma ajuda de custo de R$ 250 por mês. Muito pouco. Não receberam nada. Com o encerramento, ficaram sem perspectivas de voltar aos gramados e até mesmo para casa. A situação veio à tona quando uma das atletas, Elaine Campos, escreveu um desabado no Facebook.

“Nós do futebol feminino fomos contratadas para jogar para o clube (Santa Cruz). Por amor, saímos de nossos estados, de nossas casas para tornar um sonho realidade. Porém, não foi e nem está sendo isso que está acontecendo. Meninas de São Paulo e eu, do Mato Grosso, fomos esquecidas. Isso mesmo. Esquecidas com salários de R$ 250, com quatro meses de atrasos, sem alimentação e sem passagem para voltar para casa. Por acaso vocês estão sabendo disso? Nós temos um contrato assinado e queremos nossos direitos.”

Remediando

Com o cenário exposto, a diretoria do Santa Cruz procurou remediar a situação. Admitindo que o clube falhou ao não acompanhar e fiscalizar de perto todo o processo, Alírio assegurou que a situação das jogadoras será resolvida. “As meninas que estejam por aqui com algum prejuízo ainda serão chamadas. Serão recebidas pelo clube. Eu de antemão já peço desculpas publicamente a elas, não por maus tratos patrocinados ou feitos pelo Santa Cruz, mas pelo menos no sentido de que a gente poderia ter feito uma fiscalização, um acompanhamento melhor dessa situação. E por não ter feito essa fiscalização mais rigorosa, é que eu entendo que tenho que atuar agora para de alguma forma ajudar”, ressaltou.

O presidente afirmou ainda que pretende realizar uma investigação minudente para saber a razão dos erros cometidos. “Se tiver que entrar com uma ação contra alguém que se passou como representante do clube e fez alguma coisa sem estar autorizado, essa pessoa vai ter que responder. Penalmente, civilmente, vai ter que reparar. Estamos trabalhando em uma investigação séria”, alertou o mandatário tricolor.

A reportagem tentou entrar em contato com o coordenador da base e do futebol feminino do Tricolor, Bleno Cruz, responsável pela monitoração da equipe, mas não obteve êxito.

Futuro?

A obrigação não existe mais hoje, mas voltará a existir. Alírio sabe disso. Utilizando a má experiência vivida como exemplo, voltar a colocar as mulheres em campo acontecerá somente a partir do próximo ano. Desta vez, com planejamento. “Vamos começar a pensar nisso no segundo semestre deste ano. Discutir, eleger um diretor que vai fazer tudo aquilo que a gente espera. Que acompanhe desde o início. E montar. Enfim, botar um time em campo que possa disputar os torneios em uma condição razoável, competitiva. Eu acredito em um departamento organizado, estruturado. Pode ter pouca receita, mas vai funcionar dentro daquela receita.”

A estrutura do Vitória de Santo Antão

Heptacampeão estadual e vice-campeão da Copa do Brasil duas vezes, em 2011 e 2013. Os resultados mostram que há vida no futebol feminino do Vitória. Um mínimo de investimento e estrutura, mas que, assim como acontece hoje no Sport, é pouco.

Hoje, quem joga no time recebe uma ajuda de custo. Isso durante os campeonatos, pois contratos são feitos por competição. Além disso, as atletas recebem bolsas de estudo na Faculdade Escritor Osman da Costa Lins, da qual o presidente Paulo Roberto é proprietário. “Eles pagam até a competição, quando ela acaba o salário também é cortado”, revela lateral direita, Hayanne Sabryna. Há três anos no clube, ela é a única remanescente do elenco do ano passado.

Apesar das limitações, Hayanne elogia a estrutura do clube. Esse foi um dos fatores para ela, que cursa educação física, ficar no clube. O Vitória conta com centro de treinamento, alimentação, avaliação médica, alojamento para meninas dos outros estados e fornece materiais para preparação dos campeonatos.

Contratos

Diretor de futebol feminino do Vitória, Ivens Fernando afirmou que o planejamento para esta temporada será apresentado em breve. “Durante a semana, vamos pontuar os respectivos valores e assinar com o elenco durante um ano. As bolsas e alojamento serão mantidos. Resta saber o quanto vamos pagar para cada atleta”, enfatiza ele. 

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