No caminho errado;

ADAURY VELOSO = Na última semana, o presidente da Federação Pernambucana de Futebol voltou à cena com uma série de declarações – no mínimo – precipitadas e algumas até desconectadas com a realidade do estado, do país, dos clubes e das pessoas. Todas com o foco na retomada do Campeonato Pernambucano. Incluindo uma insana projeção de retorno ainda este mês. “Vamos retornar no dia 28 ou na pior das hipóteses, no pior dos cenários, no dia 5 de julho. Mas tudo indica que no dia 28 será possível”, disparou Evandro Carvalho na terça-feira. A declaração, obviamente, era uma sandice. Não fazia o menor sentido. Não faz. E o próprio Evandro, na última sexta-feira, mudou completamente sua linha de discurso. A bravata inicial foi substituída por um (raro) instante de racionalidade. Um freio. Necessário. Afinal estamos entrando – não apenas no futebol – em uma fase de altíssimo risco da pandemia, com uma flexibilização sem qualquer margem de segurança.

Flexibilização às pressas

A semana começou com o questionável plano de flexibilização do isolamento social anunciado na segunda-feira pelo governo de Pernambuco – justamente em uma semana onde os balanços oficiais registraram mais de 100 mortes em alguns dias. Na quinta-feira foram 122 óbitos causados pela Covid-19. Em nenhum país que conseguiu um mínimo de controle na disseminação do novo coronavírus, o isolamento começou a ser desfeito com a curva ainda crescente de casos e mortes. Pelo contrário. A flexibilização foi iniciada apenas quando a redução já se mostrava uma tendência sólida. De semanas. Algo ainda muito distante da nossa realidade. Em Pernambuco de fato começam a surgir indícios pontuais de uma redução da contaminação. O número de pessoas na fila por uma vaga na UTI, por exemplo, segue em queda. E assim deveria seguir até zerar. Quem sabe, então, o estado pudesse considerar o início da flexibilização. Mas agora isso virou uma divagação. O caminho escolhido foi outro e não sabemos onde vai nos levar.

Passos lentos

O futebol foi por este caminho. Os clubes profissionais estão autorizados a retomar os treinos no dia 15, desde que sigam todos os protocolos necessários (e este é – ou menos deveria ser – um ponto fundamental). Dentro da regra adotada pelo governo do estado, ok. Inclusive considero que os clubes profissionais do Recife têm uma estrutura melhor de capacidade de controle dos seus funcionários do que uma obra de construção civil, por exemplo, cujo reinício já acontecerá na próxima segunda-feira. E aqui entra a questão fundamental dos protocolos. Liberação para os treinos não significa reunir todos os jogadores, iniciar os trabalhos físicos e técnicos e, cinco dias depois, já fazer um coletivo. Longe disso. As recomendações são claras quanto ao distanciamento. Aos treinos isolados. Aos cuidados com os materiais utilizados (cada jogador deve cuidar do seu e lavar em casa, por exemplo). E, acima de tudo, é necessária a ampla e regular testagem de todos os envolvidos. Atletas, integrantes da comissão técnica e funcionários.

A prova do erro

É a partir dessas obrigações que a realidade começa a ser encarada minimamente de frente. Como presidente da FPF pode ter considerado a hipótese de fazer um jogo oficial 13 dias depois do início dos treinos? É de uma falta de noção inacreditável. Basta olhar para os lados. Em Santa Catarina ainda não há autorização para o retorno do estadual. A FCF foi a primeira a tentar reiniciar o futebol. Projetou em maio e não foi autorizada pelo governo. Tentou para junho e novamente foi vetada. O estado voltará a se pronunciar sobre o tema apenas no dia 6 de julho. Até lá, chance zero de ser disputado um jogo oficial. Dos 10 clubes do torneio, seis já fizeram rodadas de teste e estão treinando de acordo com os protocolos. Quatro ainda não tiveram liberação de suas prefeituras. O presidente da FCF, Rubens Angelotti, colocou como meta o primeiro jogo entre o fim de julho e início de agosto. No Rio Grande do Sul, as projeções também são para a segunda quinzena de julho ou primeira semana de agosto. E só para mostrar o quanto caminhamos cegamente no caminho errado: Pernambuco tem 3.205 mortes por Covid-19. O Rio Grande do Sul tem 258 e Santa Catarina, 159.

A conta da testagem

Como disse no início, o próprio Evandro Carvalho alinhou seu discurso sobre a volta ainda neste mês: “Do dia 28 em diante, nós poderíamos em tese voltar. Mas essa volta nós só vamos definir com as autoridades do estado. Nós não temos interesse agora em definir a volta, queremos que todo o protocolo, procedimentos e estruturas sejam feitas, depois disso tudo cumprido, nós estabelecemos a data da volta”. Resta saber se isso acontecerá na prática. Afinal, em Pernambuco, parte dos clubes nem elenco tem para voltar a disputar o estadual, muito menos recursos para rodadas de testes. A FPF vai fornecer apenas 30 para cada equipe. Número insuficiente até para a primeira testagem. Em clubes com Vasco, Bangu e Ceará, o número de contaminados se aproximou de 20. Outros, como o Fortaleza e Figueirense, tiveram um único infectado. O que mostra como será difícil uma padronização de protocolos de segurança e mais ainda, o controle permanente. A única forma de manter o básico de segurança para um grupo em torno de 40 pessoas (com a maioria ainda sem anticorpos) é realizando testes rotineiramente. No mínimo, uma vez por semana. O que significaria um custo em torno de R$ 10 mil por cada rodada de testes. Esse gasto não é uma escolha. Independentemente de quem vá pagar.

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