Sport: Milton Mendes repassa vida e traça meta;

ADAURY VELOSO ;

Treinador do Sport revela métodos de trabalho, reconhece erro por exigir demais e fala que pensa em conquistar um título brasileiro em até três anos;

Pausa na explicação. Milton Mendes pega um papel e o coloca em cima da mesa de sua sala no CT do Sport, onde passa boa parte do dia. Em seguida, desenha um campo de futebol pequeno. “Está vendo? Aqui, quando o ânimo está normal e a equipe está bem, eles vão jogar rápido em campo reduzido e com confiança. Eu posso dar esse treino”, afirma. Em seguida, desce a mão para a outra metade do folha e rabisca um retângulo bem maior. “Quando eles não estão bem emocionalmente e inseguros, você tem que fazer o trabalho em um campo grande para acertar mais do que errar”, diz.

Do lado seu esquerdo, o técnico ainda tinha folhas desenhadas com outras atividades que comandou no Sport. Na verdade, Milton Mendes tem tudo planejado. E isso é ele mesmo quem diz. Desde o treino do dia seguinte até o desejo de ser campeão brasileiro em três anos. O estilo metódico e com alto nível de exigência, que ele reconhece o ter levado a excessos, vem desde berço. Natural de Içara e criado em Criciúma, em Santa Catarina, o jovem que projetava ser um lateral teve em seu pai Martinho Neves uma figura marcante para isso.

O início solitário no futebol

Falecido no ano passado, ele cuidou de Milton e seus sete irmãos trabalhando como mineiro. “Meu pai era um homem muito rígido, porém muito bom”, lembra de quem ele considera como um grande ídolo. Foi justamente Martinho quem deu o aval para o então lateral começar a vida na bola. Porto Alegre, então, cruzou o caminho. “Imagina você dizer que seu filho com 13 anos vai sair de casa? Eu não deixaria. Ele teve a sabedoria de dizer assim: ‘Se meu filho não sair hoje, eu posso estragar o futuro dele’”, lembra.

Na capital gaúcha, Milton Mendes começou na categoria de base do Internacional. Primeiro, morou na casa de uma tia. Em seguida, foi para a concentração do clube. Foi, segundo ele, uma adolescência solitária e sem dinheiro, mas proveitosa. No Colorado, chegou a sair para comprar lanche para outros jogadores para ganhar um de brinde e poder comer melhor. “Saia no frio mesmo”, conta.

A conexão com Portugal

Do Internacional, rumou para o Vasco, onde iniciou a carreira como jogador, e também passou no Criciúma. Em seguida, ganhou a vida em Portugal. Dos 16 anos que teve como atleta profissional, 13 foram na Terrinha. O país, por sinal, virou a residência fixa, onde Milton Mendes se estabeleceu na Ilha da Madeira com a esposa brasileira e os filhos portugueses Diego e Lara. Enquanto ainda estava em campo, começou a estudar para virar treinador e conseguir os certificados da Uefa, que dá direito a trabalhar em qualquer clube do continente.
A conexão de Milton Mendes com Portugal reforçou ainda mais o caráter de comportamento disciplinar que carrega. “Encaixou perfeitamente com esse estilo europeu”, observa. Assim, ele saiu das quatro linhas para ir à técnica aliando sempre com os estudos. “Quando você joga futebol, vou fazer uma analogia, é como se fosse um armário cheio de roupa. É camisa misturada com calção, calção misturado com meia, meia misturada com chapéu. Isso é o que você aprende com o futebol. O estudo faz você colocar tudo na gaveta correta.”

Vida de técnico e erro no Vasco

Paulo Fernandes/Vasco.com.br

A carreira de técnico começou exatamente em Portugal. Milton Mendes, depois, passou pelo Catar e, desde 2013, concentra os trabalhos no Brasil com uma breve passagem no Kashima Antlers, do Japão. Em todos os clubes que comandou na terra natal, o treinador de 53 anos teve excelentes inícios assim como faz no Sport, com quatro vitórias e duas derrotas na Série A, dando uma sobrevida ao time na luta contra o rebaixamento.

“Isso é estar preparado. Quando você estuda, você está muito mais preparado”, aponta a receita. Em seguida, porém, Milton Mendes não conseguiu finalizar seus trabalhos e acabou deixando os clubes durante competições. Em alguns desses times, ganhou manchetes por atritos com atletas. Um caso emblemático foi com o zagueiro Rodrigo, ex-Vasco. Para ele, foram questões criadas pelo alto nível de exigência. .”Na relação humana, eu sou muito caxias, muito profissional. Eu precisava muito aprender isso”, declarou.

“O meu erro lá (no Vasco) foi, quando estava dando certo, eu não ter tirado o pé. Eu exigi sempre muito. Havia um limite. Eu tinha que tirar um pouco o pé. Você está pisando no acelerador e depois você ‘opa!’. Agora é hora de abrandar, soltar um pouco a rédea. Era a hora. Como apertei, apertei, apertei… Esse é o mea-culpa que faço em relação a mim. Não tem nada a ver com relacionamento. É o nível de exigência.”

Busca por ajuda profissional

A lição, Milton diz ter aprendido. Tanto que se abriu para dizer que procurou ajuda profissional. “Eu, quando disse que busquei ajuda profissional para lidar com algumas coisas, não é de relacionamento. É entender culturalmente. Quis saber como eu chegava até um ponto muito bem e depois aquilo não andava”, afirma.
Milton Mendes, então, passou a ver o contexto melhor em que estava e hoje entende que o jogador brasileiro precisa de um treinador que vá além da parte tática e saiba ser uma figura paterna. No Sport, passou a morar no CT, onde diz trabalhar mais de 14 horas por dia. “Eu fico muito tempo aqui mesmo nesta sala. Tenho a televisão, fico vendo muitas coisas que me passam. À noite, levo os jogos para o quarto e, no silêncio da noite, eu tenho umas ideias.”
Novamente nos holofotes, Milton Mendes não teve dificuldades para implementar o seu trabalho. “Aqui peguei um time trabalhador, querendo muito. Eu abracei e disse ‘vamos embora’”, declara. “No Sport, estamos em velocidade de cruzeiro. Eu não acelerei nunca. Entendi logo o contexto e comecei a trabalhar nele. Em três dias, já tinha preparado minha estratégia de trabalho”, acrescenta.

Meta de campeão brasileiro em três anos

Agora, o treinador garante que vai manter o Rubro-negro fora da zona de rebaixamento até o fim da Série A. Hoje, diz ter esse único foco. Em seguida, projeta uma carreira de sucesso. “Em três anos, quero ser campeão brasileiro. Em três anos, tenho que dar um jeito de campeão brasileiro”, afirma. “Mas, meu foco nesse momento é ser reconhecido no Brasil. Não quer ser reconhecido, nem lembrado e nem pensado que sou um treinador ‘bombeiro’. Não gosto dessa palavra. Eu quero que as pessoas olhem para mim e me deem uma oportunidade de um projeto longo”, finaliza.

Peu Ricardo/DP

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