Tricolores próximos ao Arruda contam rotina de saudade;

ADAURY VELOSO =

Final de semana seria dia de Santa Cruz. De Arruda. Contra o Treze, o Tricolor iria disputar a sua primeira partida na Série C em casa. E, como quem percorre um caminho já conhecido, o comerciante Robson Bezerra, que mora a 100 metros do estádio coral, tinha o roteiro em mente: aquela seria uma tarde de confraternização. “Estava combinando de patrocinar um churrasquinho para os amigos, tomar uma cervejinha e depois ir para o jogo”, resgata, saudoso.
Saudade de um momento que não viveu e que não sabe quando chegará. A pandemia do coronavírus paralisou o futebol em todo o país e deixou um vazio até mesmo naqueles que moram praticamente ‘colados’ com o estádio do time do coração. “Sem o jogo, vou ficar em casa com minha esposa. Nesse final de semana talvez cozinhe algo para ela. A rotina tem sido essa: acordar, almoçar e esperar a hora de dormir”, conta.

‘É duro ficar sem você vez em quando…’

A nostalgia de ir a campo, no entanto, não é unicamente sentida por Robson. Ela é também compartilhada por outro torcedor do Santa Cruz – curiosamente, seu vizinho de rua – : Flávio Chagas, que havia planejado sair duas horas mais cedo de casa para assistir ao jogo contra o Treze. Ou por Dennis Alves que, também a poucos metros do Arruda, é mais um tricolor a guardar na memória a programação que faria na partida: “ia me reunir com os amigos para ‘resenhar’ e ‘tomar uma’ no posto em frente da Beberibe”. Agora, o roteiro de ambos será o mesmo: ficar em casa.

A saudade é tanta que as respostas sobre o desconcerto que é estar tão próximo do Arruda e, ao mesmo tempo, tão longe, também são iguais: aperto. “Passar pelo Arruda, olhar ele pela janela e ver que ele está no cantinho dele, só esperando a gente voltar… É frustrante”, confidencia Robson. “O Santa Cruz é um movimento social. Perder algo desse tipo, parar de fazer isso, deixar de ir ao Mundão, quando essa rotina é, às vezes, a única coisa de boa que tem no dia…É terrível para mim”, completa Dennis.

(Foto: Bruna Costa/Esp.DP )

‘Parece que falta um pedaço de mim…’

Tricolor ‘desde que nasceu’, Flávio, por exemplo, diz que, por vezes, durante a quarentena, muda a rota quando vai ao supermercado ou na padaria, só para não passar em frente ao estádio do Santa Cruz. ‘Dói menos’, garante. “Você saber como é aquela rotina e aquele lugar e, de repente, você não tem mais movimentação, a energia… Dá um vazio”, ressalta.
Para suprir a ausência – pelo menos, momentaneamente – o estudante de administração está decorando o guarda roupa com adesivos dos escudos do Santa Cruz e também pretende pintar a parede do quarto com as cores do clube.  ‘Sempre tive vontade fazer alguma coisa que me lembrasse o Santa Cruz. Achei o momento ideal’, justifica.

Dennis e Robson, por sua vez, se apegam ao ‘passado de glórias’ do Tricolor. Revivem conquistas, como o título inédito da Copa do Nordeste e o gol do acesso à Série B protagonizado por Caça-Rato. Com um sorriso de canto da boca, eles também não se restringem a momentos marcantes. “Fico vendo e sinto saudade até mesmo aqueles lances deploráveis dentro de campo, de baixíssima qualidade técnica”, admite Robson. “Eu também olho as redes sociais de João Paulo e peço para ele voltar”, acrescenta Dennis.

(Foto: Bruna Costa/Esp.DP)
Mas e quando a pandemia acabar? A resposta está na ponta da língua, como não poderia ser diferente: ver o Santa Cruz jogar. Nem que seja para torcer do lado de fora do estádio. ‘Só para sentir a emoção de novo’, diz Flávio. “Porque isso é saudade de verdade, viu? Deixar de ver ‘boyzinha’, deixar de curtir a pessoa até consegue, mas ficar longe do Santa e do Arruda é mais complicado”, finaliza Dennis.
Aos tricolores ao redor do Mundão, o Arruda transformou-se, por ora, em um gigante adormecido. Agora, a alternativa é admirá-lo, imponente que é, pela janela de casa, e nutrir a esperança de que seja breve o tão esperado reencontro.

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